Porque é que as coisas se desarrumam? (Gregory Bateson, Metadiálogos, Lisboa, Gradiva)

Posted on janeiro 16, 2009

1


Porque é que as coisas se desarrumam?
FILHA: Papá, porque é que as coisas se desarrumam?

PAI: O que é que queres dizer com isso? Coisas? Se desarrumam?

FILHA: Bem, as pessoas gastam muitíssimo tempo a arrumar coisas, mas nunca parece que gastem tempo a desarrumá-las. As coisas parece que se desarrumam por si próprias. E depois as pessoas têm que as arrumar outra vez.

PAI: Mas as coisas desarrumam-se se tu não lhes tocares?

FILHA: Não, não se ninguém se lhes tocar. Mas se tu lhes tocares – ou se alguém lhes tocar – elas desarrumam-se e desarrumam-se ainda mais se não for eu a tocar-lhes.

PAI: Pois é! É por isso que eu bem tento evitar que mexas nas coisas da minha secretária. Porque as minhas coisas ficam ainda mais desarrumadas se alguém que não seja eu lhes mexer.

FILHA: Mas as pessoas desarrumam sempre as coisas das outras pessoas? Porque é que fazem isso, pai?

PAI: Bem, espera um pouco. Não é assim tão simples. Primeiro que tudo, que queres dizer com “arrumar”?

FILHA: Quero dizer que não consigo encontrar as coisas, e portanto parece tudo desarrumado. É como quando não está nada no lugar certo.

PAI: Bom, mas tens a certeza de que com “desarrumado” queres dizer o mesmo que qualquer outra pessoa?

FILHA: Mas, pai, claro que tenho a certeza, porque não sou uma pessoa muito arrumada e, se eu disser que as coisas estão desarrumadas, bom, tenho a certeza de que toda a gente concorda comigo.

PAI: Pronto, está bem, mas achas que queres dizer o mesmo com “arrumado” que as outras pessoas? Se a mãe arrumar as tuas coisas, sabes encontrá-las?

FILHA: Bem…algumas vezes, porque, sabes, eu sei onde ela põe as coisas quando faz arrumações.

PAI: Sim, eu também tento evitar que ela me arrume a minha secretária. Tenho a certeza de que eu e ela não queremos significar a mesma coisa quando dizemos “arrumar”.

FILHA: Pai, nós os dois queremos significar a mesma coisa quando dizemos “arrumado”?

PAI: Duvido, minha querida, duvido.

FILHA: Mas, pai, não é engraçado que toda a gente queira significar o mesmo quando diz “desarrumado”, mas toda a gente queira significar coisas diferentes quando diz “arrumado”? Mas “arrumado” é o contrário de “desarrumado”, não é?

PAI: Agora começamos a entrar em perguntas mais difíceis. Vamos lá ver isso outra vez. Tu perguntaste “Porque é que as coisas se desarrumam?” Já conseguimos perceber uma ou duas coisas – vamos mudar a pergunta para “Porque é que as coisas ficam num estado a que a Catarina chama “desarrumadas?” Percebeste porque é que eu quis fazer esta alteração?

FILHA: …Sim, penso que sim, porque, se quero significar uma coisa especial quando digo “arrumado”, então alguns dos outros “arrumados” das outras pessoas parecer-me-ão “desarrumados” a mim, mesmo que concordemos a respeito daquilo a que chamamos “desarrumado”.

PAI: Exacto. Deixa ver agora a que é tu chamas “arrumado”. Quando a caixa de aguarelas está arrumada, qual o sítio dela?

FILHA: Aqui no fim desta prateleira.

PAI: Bem, e se estivesse noutro sítio qualquer?

FILHA: Não estaria arrumada.

PAI: E se fosse no outro extremo da prateleira, aqui? Nesta posição?

FILHA: Não é o sítio dela, e de qualquer maneira teria de estar direita, e não assim de esguelha como tu a puseste.

PAI: Oh, no sítio certo e direita.

FILHA: Sim.

PAI: Bem, iso quer dizer que há muitos poucos sítios onde a tua caixa de aguarelas pode ser arrumada.

FILHA: Só um sítio.

PAI: Não, muito poucos sítios, porque, se a deslocar um pouquito, assim, ainda está arrumada.

FILHA: Está bem, mas muito poucos sítios.

PAI: Pronto, muito poucos sítios. E o urso, e a tua boneca e o Feiticeiro de Oz? E a tua camisola e os teus sapatos? É o mesmo para todas as coisas, não é? Cada coisa tem muito poucos sítios para estar arrumada?

FILHA: Sim, pai, mas o Feiticeiro de Oz pode estar em qualquer sítio nesta prateleira. E sabes que mais, pai, não gosto, não gosto mesmo nada quando os meus livros se misturam com os teus e com os da mãe.

PAI: Eu sei. (Pausa)

FILHA: Pai, tu não acabaste. Porque é que as minhas coisas acabam por ficar da maneira a que chamo “desarrumadas”?

PAI: Mas eu tinha acabado. É exactamente porque há mais maneiras a que tu chamas “desarrumadas” do que a que chamas “arrumadas”.

FILHA: Mas isso não é razão para que …

PAI: Mas é, é. É a razão real, e a única, e uma razão muito importante.

FILHA: Oh, pai, pára lá com isso.

PAI: Não, não estou a brincar. Essa é a razão, e toda a ciência depende dessa razão. Deixa-me arranjar outro exemplo. Se eu puser areia no fundo desta chávena e açúcar por cima e se depois mexer com uma colher, a areia e o açúcar misturar-se-ão, não é verdade?

FILHA: É, mas, pai, é honesto mudar para “misturado” quando começámos a falar de “desarrumado”?

PAI: Hum … pergunto a mim próprio … mas penso que sim … sim … porque podemos admitir que encontraremos alguém que pense ser mais arrumado ter a areia toda debaixo de todo o açúcar. E, se quiseres, eu poderei dizer que desejo que isso seja assim.

FILHA: Hum …

PAI: Está bem, vamos a outro exemplo. Às vezes vê-se nos filmes uma porção de letras todas misturadas e algumas de pernas para o ar. Então a mesa começa a oscilar e as letras começam a mover-se até se juntarem na posição certa par formar o nome do filme.

FILHA: Sim, já vi isso e elas formaram a palavra DONALD.

PAI: Não interessa qual a palavra que formaram. O ponto é que tu viste a mesa a oscilar e, em vez de as letras ficarem mais misturadas do que antes, juntaram-se numa certa ordem, todas direitas, e formaram uma palavra – formaram o que muita gente chamaria uma palavra que faz sentido.

FILHA: Sim, pai, mas sabes que …

PAI: Não, não sei; o que estou a tentar dizer é que, no mundo real, as coisas nunca acontecem desta forma. Só nos filmes.

FILHA: Mas, pai …

PAI: Digo-te que é só nos filmes que se podem agitar coisas e elas parecerem organizar-se com mais ordem e significado do que tinham antes.

FILHA: Mas, pai…

PAI: Desta vez espera até eu acabar. Nos filmes, eles conseguem esse efeito filmando tudo de trás para diante. Põem as letras todas por ordem e formam a palavra DONALD; depois começam a filmar e a fazer tremer a mesa.

FILHA: Oh, pai, eu já sabia isso e tenho estado a tentar dizer-to. Depois projectam o filme ao contrário, para parecer que as coisas acontecem na ordem inversa. Mas eles tremem a mesa ao contrário? Têm de filmar de pernas para o ar? Porquê, pai?

PAI: Oh, meu Deus! …

FILHA: Porque é que eles têm de filmar de pernas para o ar, pai?

PAI: Não, não vou responder-te agora, porque ainda estamos no meio da pergunta a respeito de coisas desarrumadas.

FILHA: Está bem, mas não te esqueças, pai, de que tens de me responder noutro dia a respeito da pergunta sobre a câmara. Não te esqueces, pois não, pai? Porque eu posso não me lembrar. Por favor, pai.

PAI: Está bem, mas noutro dia. Agora, de que falávamos nós? Ah, sim, a respeito de as coisas nunca acontecerem ao contrário. E eu estava a tentar dizer-te que há uma razão para que as coisas aconteçam de determinada maneira se pudermos mostrar que há mais possibilidades de acontecerem dessa maneira do que de maneira diferente.

FILHA: Pai, não comeces a dizer disparates.

PAI: Não, não estou a dizer disparates: vamos começar outra vez. Só há uma maneira de escrever DONALD. Concordas?

FILHA: Sim.

PAI: Bem. E há muitas e muitas maneiras de misturar seis letras em cima da mesa. Concordas?

FILHA: Sim. Acho que sim. Podem algumas dessas maneiras ser de pernas para o ar?

PAI: Podem. Da mesma forma como eram mostradas no filme. Mas podia haver muitas e muitas como essa, não podia? E só um DONALD:

FILHA: Está certo. Mas, pai, as mesmas letras podiam formar OLD DAN.

PAI: Isso não interessa. As pessoas do filme não queriam escrever OLD DAN. Só queriam DONALD.

FILHA: Porque é que eles queriam isso?

PAI: As pessoas do filme que vão para o diabo.

FILHA: Mas foste tu que falaste delas primeiro, pai.

PAI: Sim, mas era para tentar explicar-te que as coisas acontecem de determinada maneira porque há mais possibilidades de acontecerem dessa maneira. Agora é altura de ires para a cama.

FILHA: Mas, pai, tu ainda não acabaste de me dizer porque é que as coisas acontecem dessa maneira, da maneira que tem mais possibilidades.

PAI: Está bem. Mas aguenta aí os cavalinhos – um já chega. De qualquer forma, já estou cansado do DONALD; vamos arranjar outro exemplo. Vamos atirar uma moeda ao ar.

FILHA: Pai, ainda estás a falar a respeito da mesma pergunta com que começámos? “Porque é que as coisas se desarrumam”?

PAI: Estou.

FILHA: Então, o que estás a dizer é verdade para a moeda ao ar, para o DONALD, para o açúcar com a areia e para a minha caixa de aguarelas?

PAI: Sim, é verdade.

FILHA: Oh, só estava a perguntar, mais nada.

PAI: Bom, vamos lá a ver se eu consigo dizer isto desta vez. Voltemos à areia e ao açúcar e vamos supor que há quem diga que ter a areia no fundo é “arrumado” ou “ordenado”.

FILHA: Pai, tem alguém de dizer qualquer coisa desse género antes de continuares a falar de como as coisas se vão misturar quando lhes mexeres.
PAI: Sim, é exactamente esse o ponto. As pessoas dizem o que esperam que aconteça e então eu digo-lhes que não acontecerá porque há muitas outras coisas que podem acontecer. E eu sei que é mais natural que aconteça uma das muitas coisas que podem acontecer do que uma das poucas …

FILHA: Pai, tu estás sempre do contra, apostando em todos os cavalos contra aqueles em que eu quero apostar.

PAI: É verdade, minha querida. Eu faço-os apostar naquilo que eles chamam o caminho “arrumado”. Eu sei que há infinitamente mais caminhos “desarrumados”, e portanto as coisas tenderão sempre para desarrumadas e misturadas.

FILHA: Mas porque não disseste isso ao princípio, pai? Eu tê-lo-ia percebido logo!

PAI: Sim, penso que sim. De qualquer maneira, são horas de ir para a cama.

FILHA: Pai, porque é que os adultos fazem guerra, em vez de lutarem como as crianças fazem?

PAI: Não. São horas de ir para a cama. Falaremos de guerras noutra altura.

Anúncios