Biologia Cultural

Reflexões através da Biologia Cultural

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Redes Sociais

Publicado por drleonunes em novembro 14, 2009

Autor: Leandro Nunes Azevedo

Fiar uma rede é arte de fato

Que não se dá num só ato

De atar os seus nós.



Orkut é uma trama, um fato da arte

Em que pessoas são parte

De o novo surgir



De uma comunidade

Que é novidade, criatividade

Emergência da nova cultura



De um povo jovem

Na forma de ser

De existir, de relacionar



Com nova linguagem

Dá nova linhagem

Ao devir social



É movimento

Que dá andamento

a mudança global!

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Porque é que as coisas se desarrumam? (Gregory Bateson, Metadiálogos, Lisboa, Gradiva)

Publicado por drleonunes em janeiro 16, 2009

Porque é que as coisas se desarrumam?
FILHA: Papá, porque é que as coisas se desarrumam?

PAI: O que é que queres dizer com isso? Coisas? Se desarrumam?

FILHA: Bem, as pessoas gastam muitíssimo tempo a arrumar coisas, mas nunca parece que gastem tempo a desarrumá-las. As coisas parece que se desarrumam por si próprias. E depois as pessoas têm que as arrumar outra vez.

PAI: Mas as coisas desarrumam-se se tu não lhes tocares?

FILHA: Não, não se ninguém se lhes tocar. Mas se tu lhes tocares – ou se alguém lhes tocar – elas desarrumam-se e desarrumam-se ainda mais se não for eu a tocar-lhes.

PAI: Pois é! É por isso que eu bem tento evitar que mexas nas coisas da minha secretária. Porque as minhas coisas ficam ainda mais desarrumadas se alguém que não seja eu lhes mexer.

FILHA: Mas as pessoas desarrumam sempre as coisas das outras pessoas? Porque é que fazem isso, pai?

PAI: Bem, espera um pouco. Não é assim tão simples. Primeiro que tudo, que queres dizer com “arrumar”?

FILHA: Quero dizer que não consigo encontrar as coisas, e portanto parece tudo desarrumado. É como quando não está nada no lugar certo.

PAI: Bom, mas tens a certeza de que com “desarrumado” queres dizer o mesmo que qualquer outra pessoa?

FILHA: Mas, pai, claro que tenho a certeza, porque não sou uma pessoa muito arrumada e, se eu disser que as coisas estão desarrumadas, bom, tenho a certeza de que toda a gente concorda comigo.

PAI: Pronto, está bem, mas achas que queres dizer o mesmo com “arrumado” que as outras pessoas? Se a mãe arrumar as tuas coisas, sabes encontrá-las?

FILHA: Bem…algumas vezes, porque, sabes, eu sei onde ela põe as coisas quando faz arrumações.

PAI: Sim, eu também tento evitar que ela me arrume a minha secretária. Tenho a certeza de que eu e ela não queremos significar a mesma coisa quando dizemos “arrumar”.

FILHA: Pai, nós os dois queremos significar a mesma coisa quando dizemos “arrumado”?

PAI: Duvido, minha querida, duvido.

FILHA: Mas, pai, não é engraçado que toda a gente queira significar o mesmo quando diz “desarrumado”, mas toda a gente queira significar coisas diferentes quando diz “arrumado”? Mas “arrumado” é o contrário de “desarrumado”, não é?

PAI: Agora começamos a entrar em perguntas mais difíceis. Vamos lá ver isso outra vez. Tu perguntaste “Porque é que as coisas se desarrumam?” Já conseguimos perceber uma ou duas coisas – vamos mudar a pergunta para “Porque é que as coisas ficam num estado a que a Catarina chama “desarrumadas?” Percebeste porque é que eu quis fazer esta alteração?

FILHA: …Sim, penso que sim, porque, se quero significar uma coisa especial quando digo “arrumado”, então alguns dos outros “arrumados” das outras pessoas parecer-me-ão “desarrumados” a mim, mesmo que concordemos a respeito daquilo a que chamamos “desarrumado”.

PAI: Exacto. Deixa ver agora a que é tu chamas “arrumado”. Quando a caixa de aguarelas está arrumada, qual o sítio dela?

FILHA: Aqui no fim desta prateleira.

PAI: Bem, e se estivesse noutro sítio qualquer?

FILHA: Não estaria arrumada.

PAI: E se fosse no outro extremo da prateleira, aqui? Nesta posição?

FILHA: Não é o sítio dela, e de qualquer maneira teria de estar direita, e não assim de esguelha como tu a puseste.

PAI: Oh, no sítio certo e direita.

FILHA: Sim.

PAI: Bem, iso quer dizer que há muitos poucos sítios onde a tua caixa de aguarelas pode ser arrumada.

FILHA: Só um sítio.

PAI: Não, muito poucos sítios, porque, se a deslocar um pouquito, assim, ainda está arrumada.

FILHA: Está bem, mas muito poucos sítios.

PAI: Pronto, muito poucos sítios. E o urso, e a tua boneca e o Feiticeiro de Oz? E a tua camisola e os teus sapatos? É o mesmo para todas as coisas, não é? Cada coisa tem muito poucos sítios para estar arrumada?

FILHA: Sim, pai, mas o Feiticeiro de Oz pode estar em qualquer sítio nesta prateleira. E sabes que mais, pai, não gosto, não gosto mesmo nada quando os meus livros se misturam com os teus e com os da mãe.

PAI: Eu sei. (Pausa)

FILHA: Pai, tu não acabaste. Porque é que as minhas coisas acabam por ficar da maneira a que chamo “desarrumadas”?

PAI: Mas eu tinha acabado. É exactamente porque há mais maneiras a que tu chamas “desarrumadas” do que a que chamas “arrumadas”.

FILHA: Mas isso não é razão para que …

PAI: Mas é, é. É a razão real, e a única, e uma razão muito importante.

FILHA: Oh, pai, pára lá com isso.

PAI: Não, não estou a brincar. Essa é a razão, e toda a ciência depende dessa razão. Deixa-me arranjar outro exemplo. Se eu puser areia no fundo desta chávena e açúcar por cima e se depois mexer com uma colher, a areia e o açúcar misturar-se-ão, não é verdade?

FILHA: É, mas, pai, é honesto mudar para “misturado” quando começámos a falar de “desarrumado”?

PAI: Hum … pergunto a mim próprio … mas penso que sim … sim … porque podemos admitir que encontraremos alguém que pense ser mais arrumado ter a areia toda debaixo de todo o açúcar. E, se quiseres, eu poderei dizer que desejo que isso seja assim.

FILHA: Hum …

PAI: Está bem, vamos a outro exemplo. Às vezes vê-se nos filmes uma porção de letras todas misturadas e algumas de pernas para o ar. Então a mesa começa a oscilar e as letras começam a mover-se até se juntarem na posição certa par formar o nome do filme.

FILHA: Sim, já vi isso e elas formaram a palavra DONALD.

PAI: Não interessa qual a palavra que formaram. O ponto é que tu viste a mesa a oscilar e, em vez de as letras ficarem mais misturadas do que antes, juntaram-se numa certa ordem, todas direitas, e formaram uma palavra – formaram o que muita gente chamaria uma palavra que faz sentido.

FILHA: Sim, pai, mas sabes que …

PAI: Não, não sei; o que estou a tentar dizer é que, no mundo real, as coisas nunca acontecem desta forma. Só nos filmes.

FILHA: Mas, pai …

PAI: Digo-te que é só nos filmes que se podem agitar coisas e elas parecerem organizar-se com mais ordem e significado do que tinham antes.

FILHA: Mas, pai…

PAI: Desta vez espera até eu acabar. Nos filmes, eles conseguem esse efeito filmando tudo de trás para diante. Põem as letras todas por ordem e formam a palavra DONALD; depois começam a filmar e a fazer tremer a mesa.

FILHA: Oh, pai, eu já sabia isso e tenho estado a tentar dizer-to. Depois projectam o filme ao contrário, para parecer que as coisas acontecem na ordem inversa. Mas eles tremem a mesa ao contrário? Têm de filmar de pernas para o ar? Porquê, pai?

PAI: Oh, meu Deus! …

FILHA: Porque é que eles têm de filmar de pernas para o ar, pai?

PAI: Não, não vou responder-te agora, porque ainda estamos no meio da pergunta a respeito de coisas desarrumadas.

FILHA: Está bem, mas não te esqueças, pai, de que tens de me responder noutro dia a respeito da pergunta sobre a câmara. Não te esqueces, pois não, pai? Porque eu posso não me lembrar. Por favor, pai.

PAI: Está bem, mas noutro dia. Agora, de que falávamos nós? Ah, sim, a respeito de as coisas nunca acontecerem ao contrário. E eu estava a tentar dizer-te que há uma razão para que as coisas aconteçam de determinada maneira se pudermos mostrar que há mais possibilidades de acontecerem dessa maneira do que de maneira diferente.

FILHA: Pai, não comeces a dizer disparates.

PAI: Não, não estou a dizer disparates: vamos começar outra vez. Só há uma maneira de escrever DONALD. Concordas?

FILHA: Sim.

PAI: Bem. E há muitas e muitas maneiras de misturar seis letras em cima da mesa. Concordas?

FILHA: Sim. Acho que sim. Podem algumas dessas maneiras ser de pernas para o ar?

PAI: Podem. Da mesma forma como eram mostradas no filme. Mas podia haver muitas e muitas como essa, não podia? E só um DONALD:

FILHA: Está certo. Mas, pai, as mesmas letras podiam formar OLD DAN.

PAI: Isso não interessa. As pessoas do filme não queriam escrever OLD DAN. Só queriam DONALD.

FILHA: Porque é que eles queriam isso?

PAI: As pessoas do filme que vão para o diabo.

FILHA: Mas foste tu que falaste delas primeiro, pai.

PAI: Sim, mas era para tentar explicar-te que as coisas acontecem de determinada maneira porque há mais possibilidades de acontecerem dessa maneira. Agora é altura de ires para a cama.

FILHA: Mas, pai, tu ainda não acabaste de me dizer porque é que as coisas acontecem dessa maneira, da maneira que tem mais possibilidades.

PAI: Está bem. Mas aguenta aí os cavalinhos – um já chega. De qualquer forma, já estou cansado do DONALD; vamos arranjar outro exemplo. Vamos atirar uma moeda ao ar.

FILHA: Pai, ainda estás a falar a respeito da mesma pergunta com que começámos? “Porque é que as coisas se desarrumam”?

PAI: Estou.

FILHA: Então, o que estás a dizer é verdade para a moeda ao ar, para o DONALD, para o açúcar com a areia e para a minha caixa de aguarelas?

PAI: Sim, é verdade.

FILHA: Oh, só estava a perguntar, mais nada.

PAI: Bom, vamos lá a ver se eu consigo dizer isto desta vez. Voltemos à areia e ao açúcar e vamos supor que há quem diga que ter a areia no fundo é “arrumado” ou “ordenado”.

FILHA: Pai, tem alguém de dizer qualquer coisa desse género antes de continuares a falar de como as coisas se vão misturar quando lhes mexeres.
PAI: Sim, é exactamente esse o ponto. As pessoas dizem o que esperam que aconteça e então eu digo-lhes que não acontecerá porque há muitas outras coisas que podem acontecer. E eu sei que é mais natural que aconteça uma das muitas coisas que podem acontecer do que uma das poucas …

FILHA: Pai, tu estás sempre do contra, apostando em todos os cavalos contra aqueles em que eu quero apostar.

PAI: É verdade, minha querida. Eu faço-os apostar naquilo que eles chamam o caminho “arrumado”. Eu sei que há infinitamente mais caminhos “desarrumados”, e portanto as coisas tenderão sempre para desarrumadas e misturadas.

FILHA: Mas porque não disseste isso ao princípio, pai? Eu tê-lo-ia percebido logo!

PAI: Sim, penso que sim. De qualquer maneira, são horas de ir para a cama.

FILHA: Pai, porque é que os adultos fazem guerra, em vez de lutarem como as crianças fazem?

PAI: Não. São horas de ir para a cama. Falaremos de guerras noutra altura.

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Primeiras reflexões sobre: “O que é ver?”

Publicado por drleonunes em maio 30, 2008

Na medida em que se formula uma explicação para a pergunta: “O que é ver?”, aceitando como resposta o que condiz com os critérios de validação da Biologia do Conhecer, surgem também implícitas as respostas para: “O que é a realidade?” e “O que é conhecer?”

Quando observamos, como observadores que somos, um sapo ou salamandra lançando sua língua até um mosquito, deduzimos que o predador percebe a presa, ou seja, que faz uma representação interna daquilo que ocorre externamente. Em sua coordenação condutual, o mosquito está comunicando ou informando para o sapo que está ali – numa existência independente da do sapo. Então o sapo quando o percebe (“vê”), captura!

Entretanto, quando realizado laboratoriamente o experimento conduzido inicialmente por Roger Sperry e posteriormente por Humberto Maturana, da rotação dos olhos de uma rã ou de uma salamandra, foi questionado se ela, após recuperar as mesmas conexões neuronais anteriores, corrigiria a percepção que tem do mundo, já que este se comunica externamente e possui uma existência independente. Curiosamente foi observado que a rã ou a salamandra, após posicionada a presa em seu campo visual, lançava sua língua numa direção oposta proporcional à rotação dos olhos; não acertando, portanto, a presa.

O resultado era intrigante! Algo acontecia no processamento neural que determinava a forma com que a rã ou a salamandra se comportava, gerando um operar que se mantinha, mesmo que inadaptativo para a manutenção da vida desse ser. Interessante que essa experiência demonstrava um resultado contrário ao senso comum de que os objetos possuíam uma existência independente, apenas captada pelo nosso sistema nervoso. Como, então, pode se dar o erro? Como, afinal de contas, o organismo da rã ou da salamandra determina o que existe fora de si?

Foi então refletido que se o olho do animal estudado é rodado, muda também as dinâmicas internas do organismo e, portanto, se altera o mundo”gerado” pela espécime estudada, desde a perspectiva do observador que descreve o fenômeno. Ou seja, o mundo também gira com o girar dos olhos da rã ou da salamandra.

Curioso que vivenciamos os efeitos disso cotidianamente através do estudo das ilusões de ótica e das auditivas, por exemplo. Se o mundo se apresenta integralmente aos seres e esses possuem um acesso privilegiado à realidade, não teria de haver erros de percepção. No entanto estes ocorrem, e refletimos que o mundo não surge em si; mas como resultado da dinâmica interna do ser vivo.

Maturana defende que o que observamos, como observadores que somos, é a congruência existente no acoplamento estrutural que se dá entre o organismo e o meio. Se propusermos que o sistema nervoso é um sistema fechado em si – ou seja, possui uma existência independente da do meio; então as pertubações que ocorrem no meio já estão determinadas em sua estrutura, como também as condutas da última em relação ao primeiro. Essa integração entre o ser e o meio é necessária para manutenção da autopoiese e da adaptação de um para com o outro.

Somos sistemas determinados pela estrutura, e nós, os seres humanos, estamos constituídos de tal modo que nada externo que nos afete pode especificar o que nos sucede, e que os agentes externos que nos afetam somente podem gatilhar mudanças estruturais que já estão determinadas em nosso organismo. E isso tem consequência em todos os domínios de nossas vidas. Uma dessas consequências é que os fenômenos próprios de nossa fisiologia e os fenômenos próprios das condutas são produzidos em domínios fenomênicos que não se entrecruzam, e um não pode ser reduzido ao outro.

O fenômeno da visão, enfim, é uma explicação que não se dá, já que tenta descrever o que ocorre na fisiologia à partir do que ocorre no domínio das condutas. Ou seja, o observador apenas descreve o que se dá no espaço relacional que existe entre o ser vivo e o meio; não há possibilidade de explicar o que se dá na dinâmica interna do ser vivo observado, sua fisiologia.

Aceitar como explicação o mecanismo proposto pela “visão” ou “percepção” oculta ou nega os fenômenos que surgem ao perguntarmos: Como se vê o que se vê?

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Internacionalização da Amazônia

Publicado por drleonunes em maio 28, 2008

Transcrevo abaixo determinado trecho do livro: “De las naciones a las redes”, de David de Ugarte, Pere Quintana, Enrique Gómez y Arnau Fuentes, disponível para download em http://www.deugarte.com/de-las-naciones-a-las-redes:

“Irina Popova conta em um breve, porém interessante, artigo como no Impéro Austro-húngaro o relato cartográfico serviu para construir um discurso de legitimidade nacional dentro do mapa dinástico imperial, apresentado de forma homogênea as distintas regiões e sobretudo o Império como o resultante da união de uma série de partes com sentido pleno e próprio (nacional). Um tipo de mensagem que, como conta Shapiro no Estado da Arte da Historiografia Contemporânea, havía começado já com:

“As práticas cartográficas francesas passaram a orientar-se na substituição dos espaços de privilégio aristocrático pelo espaço uniforme, sustentando por um ideal republicano: a aplicação uniforme da lei sob uma única administração.”‘

Claro que foi fora da Europa em que os mapas puderam compor parte de uma profecia auto-cumprida mais do que um relato dos avanços do estado nacional:

“O mapa se antecipa a realidade espacial e não o inverso. Em outras palavras, um mapa era um modelo para o que pretendia representar, em vez de um modelo do representado.”

E isso não ocorria somente na Ásia, onde as fronteiras dinásticas eram difusas, dividida em zonas e não em linhas. Marcou sobretudo o primeiro imaginário nacional na América, onde grandes unidades coloniais, como o Brasil ou o vice-reinado do Rio da Prata, vieram a ser representados sob âmbito administrativo em territórios muito maiores do que efetivamente as metrópoles administravam ou inclusive havíam explorado.

… São os mapas mundi do final do século XIX, após a repartição colonial da África, com cada pedaço de terra apropriado por um estado nacional, com suas cores homogêneas representando até a última porção de terra emergida…

É noticiado, em nossas redes televisivas, a internacionalização da Amazônia como um discurso que parte da imprensa e dos políticos europeus e norte-americanos.

De onde escuto, como brasileiro, o que diz o candidato norte-americano Barack Obama sobre a Amazônia internacional é desde a reflexão sobre: quais os motivos e razões para alguém estrangeiro ao território brasileiro ter interesses e desejos de determinar o que pode ou não ser feito com as riquezas, território e bens de outro país.

Para isso me remeto ao passado e percebo que já é antigo no ideário europeu, importado pelo norte-americano, o discurso e modelo intervencionista, dominador e controlador; mantido na conservação de um espaço emocional da competição e de negação do outro como legítimo outro; sendo esse o cerne da cultura ocidental greco-judeu-cristã. Desde os tempos remotos essa cultura já dava espaço à apropriação do solo estrangeiro como discurso legítimo e “verdadeiro”; como uma forma de retirar a posse daquele povo “subdesenvolvido”, “selvagem” e “pecador” para dar àqueles que são “cultos”, “iluminados”, “sofisticados” e “povo escolhido por Deus”.

Acredito, que nos tempos em que vivemos, do império do capital financeiro e dos discursos da evolução pela competição, da imposição de uma só linguagem como internacional, de um só pensamento político-social, da globalização e massificação da cultura norte-americana, acredito que ensejam a busca competitiva das riquezas naturais da floresta: sua flora, fauna e reservas minerais (ouro, ferro, prata, petróleo, etc), ao interesse deles e não do próximo; bem contrário ao discurso altruísta da proteção ambiental que defendem.

É falso o discurso da sustentabilidade defendido por um país quando observamos o que conserva, só para exemplificar: (1) a destruição de todas as suas reservas florestais, a poluição de seus rios, nascentes e lagos, a liberação de poluentes no ar, na atmosfera; (2) a condenação, negação e desrespeito ao tratado de Kioto; (3) as “soluções” aos ditos “conflitos” estrangeiros por meio da guerra; (4) a aquisição da matéria-prima por valores ínfimos de países “pobres”, que é conduzida às modificações, troca da embalagem e revenda aos mesmos países por valores exorbitantes; (5) a utilização de modelo denunciado pela “Shock Doctrine” (http://www.naomiklein.org/shock-doctrine); (6) a difusão e defesa do conceito de propriedade privada de tudo e de todos, até dos direitos individuais e humanos; (7) o consumo desenfreado, tripla jornada de trabalho (os workaholics), hipervalorização do lucro, da riqueza; (8 ) o uso manipulativo da linguagem que faz o governo e a imprensa sobre o povo, conforme denuncia o famoso linguista e professor do MIT, Noam Chomsky; etc.

Acredito que é tempo para reflexão sobre os discursos da ecologia, da sustentabilidade, da internacionalização das florestas, dos rios, da vida, etc.

De onde eles partem: de que domínio pertencem essas pessoas? De que espaço emocional? De que cultura? Em que línguas as coisas são comunicadas e impressas? Com qual interesse explícito e implícito? Quem está no centro das discussões gerando as indagações e as reflexões? Quem são os formadores de opinião? Afinal, como se constrói a rede social desses debates?

Como fiz acima, convido aos colegas à reflexão desde essas questões e outras.

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Qual explicação reflete a “realidade”?

Publicado por drleonunes em maio 23, 2008


Só uma leitura geral do livro
Freakonomics já dá uma idéia, enquanto domínio explicativo científico e econômico, de como até as pressuposições e leituras precipitadas e simplificadas da realidade, conservadas pelo senso comum, podem estar extremamente equivocadas.

É curioso como são aventadas explicações de todos os tipos, havendo indivíduos que inclusive salientam sua cientificidade, que estabelecem relações de causa-efeito para tudo; desde a razão para um tombo até as alterações clímáticas do planeta. Nós, humanos, somos desejosos e capazes de darmos justificativas para qualquer coisa; e inclusive de batizá-las “verdades” incontestáveis!

Há uma semana apresentei uma intensa coriza, obstrução nasal e espirros constantes enquanto estive em viagem à São Paulo – capital. Escutei interessado como diversas pessoas davam explicações espontâneas para o que me ocorria:
(1) Isso é decorrente da quantidade de poluição existente no ar de São Paulo, que piora especialmente nos meses de inverno; (2) Isso é resultado das partículas e gases liberadas pelo vulcão chileno que chegam ao Brasil; (3) Estamos numa fase de floração de diversas árvores e plantas que devem justificar seus sintomas; (4) os agasalhos são retirados dos armários nos meses de frio, cheios de fungos e mofo. Se não lavados adequadamente podem desencadear sintomas alérgicos; (5) Isso é resultado de um contato que teve com pessoas adoecidas por viroses gripais; (6) O número de casos de indivíduos atópicos nascidos de partos cesáreos e criados em grandes centros urbanos sob higienização intensa só aumentam; (7) O estresse dos grandes centros só gera redução da imunidade; quantas crises teve durante o ano?; (8 ) A condição de dentição está diretamente relacionada à reatividade imunológica individual, como também aos aspectos psicológicos e biológicos; precisamos corrigir seus dentes “encavalados” urgentemente (“Ortodontia funcional”); e seguem… Penso que uma vez que todos estavam cobertos de “razão” e verdade em suas opiniões, pergunto: qual seria a única explicação válida? Existe só e tão somente uma?

Permaneço refletindo em quantos contextos das relações humanas ou entre seres vivos podemos aplicar uma metáfora como a de um jogo de bilhar, em que cada bola possui seu peso e tamanho imutáveis durante todo o tempo do jogo e as condições do ambiente permanecem controladas (inclinação da mesa, retidão de seu tecido ou cobertura, posição dos “buracos”, composição e características dos tacos, etc). A destreza do jogador se manifesta na capacidade de prever os fenômenos desejados enquanto realiza cada jogada: “O lance certeiro na bola preta, encaçapará as bolas azul e amarela nessa etapa”. Todo o processo ocorre como no estudo de objetos em laboratórios, onde o máximo de variáveis de confusão são controladas, e as variáveis em estudo podem ser quantificadas e monitoradas.

Creio que a descrição mais acertada das relações que ocorrem em nosso meio seria a tarefa complexa em que as propriedades e trajetórias das bolas de bilhar e da mesa mudássem simultaneamente em cada jogada. Na qual os modelos de previsibilidade positivistas são incapazes de gerar qualquer previsão acurada e certeira. Penso que nesse modelo explicativo vivemos como médicos, psicólogos, terapeutas, professores, etc.

Nossas conclusões só serão capazes de prover “snapshots”, instantâneos da realidade mutante; que podem valer para aquelas situações de curto prazo, simples e de mudança muito lenta; mas incapazes de prever os eventos em longo prazo, de natureza complexa e de mudança acelerada.

Num cenário tão desafiador, como podemos contestar um modelo com base em outro? Como evidenciar a verdade das explicações? Como congelar as descrições e definições de modelos de fenômenos presenciados que já se tornam alterados no transcorrer de 1 segundo? Como olhar para um evento complexo, dar conclusões simplificadas e chamá-las de “verdade”?

Acredito que esses sejam somente alguns dos desafio da pós-pós-modernidade.

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Artigos e textos de Humberto Maturana

Publicado por drleonunes em maio 23, 2008

Ginnie Spring, Florida, 1998 - Photograph by Wes Skiles

Alguns dos artigos do Prof. Humberto Maturana podem ser acessados no Scribd, através do link: http://www.scribd.com/search?query=maturana.

Já é um primeiro passo para aqueles que desejam se aprofundar nos estudos desse extraordinário Biólogo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_Maturana.

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